Redes Sociais e a Cultura dos Cancelamentos - Por Janiê Maia
As redes sociais formam hoje os cinturões maciços da comunicação humana, se há 20 anos não pensávamos em mandar ninguém se lascar via web, hoje é prático e rápido. WhatsApp, Instagram, e Twitter se transformaram na meca do mundo das ilusões, ou não, porque cada rede tem suas particularidades sociológicas. A exemplo do Twitter e sua geração do cancelamento, em uma semana você é amado, no outro dia é cancelado. A geração cancelamento é a geração da insatisfação, é a geração que espera que seu ídolo não falhe, não erre, não cometa pecados e descaminhos.
Sinto muito lhe dizer, meus caros jovens, mas todo ser humano é imperfeito, imagine uma balança e que você vai julgar Madonna: de um lado suas características positivas, seu legado, do outro lado as características negativas, as suas falhas e seus erros. O problema da adoração infinita a um ídolo é isso, ao bradar na rede social que você passa pano para a Madonna por que ela é a rainha do Pop, você afirma que acima de todas as falhas delas futuras vindouras, você a defenderá. Então meu caro, eis aqui a sua primeira falha dentro da bússola moral. Primeiro que Madonna é humana e não deusa, segundo que deuses também erram e terceiro: você não é a bússola moral. E eu como escritora estagiária tento dá um foco a esse texto e não passar pano.
A afinidade que
criamos por alguém, seja essa pessoa artista, escritor, professor, tende a nos
cegar para os atos cometidos por estes. Diante disso, a velha reflexão de que amigo de verdade lhe diz a verdade acima de
tudo e lhe é sincero, é presteza e bondade atualmente. O fato é que: quem
ainda não foi cancelado que continue assim, particularmente os cancelamentos
podem fazer parte da aprendizagem de uma pessoa, vide Boca Rosa que foi super
criticada durante sua passagem no BBB por desconhecimento às causas feministas
e antirracistas. Eliminada da edição, Boca Rosa procurou estudar as pautas e
hoje se mostra uma pessoa mais ligada aos temas que lhe eram desprezados.
Anita que antes evitava falar de pautas políticas, fugia de debates sobre gênero, hoje faz diversas lives para tentar aprender, depois de ser cancelada, principalmente pelos LGBTI+ e ser tachada de fazer Pink Money (é o termo usado para caracterizar a comercialização de produtos para o público LGBTI+). E de fato fazia, ao vender suas músicas e produtos para esse público, se calou na época das eleições ao ser perguntada em quem iria votar para presidente. Todos sabiam do cheiro de voto político bolsonarista, mas teve gente que a defendeu ao afirmar que ninguém é obrigado a se posicionar. Discordo, será que na época, Anita não poderia través de seu alcance popular afirmar que não votaria em candidato homofóbico? Não, ela não o fez, e me desculpem os Aniters fãs, mas o oportunismo sempre está por perto dela e de outros artistas também. Anita é criticada até hoje por suas críticas ao feminismo.
A cultura do cancelamento é perigosa, se de um lado é pertinente, por outro é falaciosa. Nessa semana a Natura anunciou Thamy Miranda como garoto propaganda de sua campanha de dia dos pais, Thamy é um homem trans. Por esse motivo absurdo, por ser trans e pai, os conservadores de plantão tentam boicotar a Natura e cancelar Thamy. Em um país com uma desigualdade social continental, os cidadãos de bem se preocupam em cancelar um homem comum, um pai maravilhoso. Um dos cidadãos de bem, indagados do porque não aceitavam Thamy como garoto propaganda respondeu o seguinte: ‘ele não tem pênis’. Fiquei me perguntando afinal: para ser pai é importante amor ou órgão genital? Cancelaram esse cidadão homofóbico? Não, não cancelaram.
O termo cancelamento é ridículo, ninguém realmente é cancelado ou bloqueado de sua vida social, o que podemos fazer é criticar, críticas construtivas são muito boas, fazem parte de nossa trajetória como seres humanos, é filosófico. Aliás, cancelar é negar a essência filosófica do ser humano, pois quando negamos os conflitos, os debates, as discussões, nós negamos a filosofia, negamos a construção de ideias. Cancelamento não é filosofar, filosofar é debater, criticar, dialogar.
Se refletirmos sobre todxs que viraram heróis na história por suas lutas e investigarmos a sua vida pessoal, todos seriam cancelados, Martin Luther King exemplifica bem isso, um pacifista antirracista de suma importância, como marido e companheiro era péssimo. Isso não apagou sua memória de luta. E se ao ser cancelado, Martin desistisse de sua luta? Teríamos conquistado os direitos civis?
O cancelamento não cancela, ele cala, ele censura, ele silencia o debate e a filosofia, ele mata a construção de ideias e cria falsos moralistas.
Filosofar faz bem! Cancelar não!


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